sábado, 25 de novembro de 2017

Pomba Gira

Medo que a pomba-gira me dissesse Deus, o sexo, a morte.
Medo que o seu charuto,
a sua cachaça me anunciassem
o centro fumegante da terra antes que eu abatesse minha cede de frescor e delicadeza.
A gargalhada preta, vermelha e quente
me apavorava. Aquela diaba
de fumo e ferros diria o que nem eu mesmo alcançava em mim? Rugiria aos quatro cantos
aquilo que fosse de mim a borra no fundo, o avesso, o três, o vazio,
a folha venenosa que recusei, que evitei mastigar e permanecia quieta como um cacto
secreto? Medo
daquela mulher absoluta, rainha
errada, metade deusa,
metade puta, que era
e não era, e cuja excêntrica presença,
encarnação momentânea, era o canto e a dança,
dos sudários, das aparições, dos espectros e assombramentos, das sombras e almas padecentes
a vagar desgraçados pelas esquinas. E eu, que só queria fingir que não se morre,
que só queria não sofrer, escondia minha água mais íntima quanto mais temia
aquele anjo todo fogo que girava sobre um chão de punhais, que girava sobre um chão
de pólvora, que girava, cabelos, dentes, que girava. Que gira na memória.

(Eucanaã Ferraz)

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