quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O poema

Que será o poema,

essa estranha trama

de penumbra e flama

que a boca blasfema?

Que será, se há lama

no que escreve a pena

ou lhe aflora à cena

o excesso de um drama?

Que será o poema:

uma voz que clama?

Uma luz que emana?

Ou a dor que o algema?

(Ivan Junqueira)

domingo, 8 de novembro de 2020

A uma mulher

Só te quero para mim se te puder dar aos outros,
Porque os outros não são senão eu ampliado.
Quero ver-te beijada por todas as minhas bocas.
Quero ver-te abraçada por todos os meus braços.
Quero ver-te numa rótula e depois num altar
Distribuindo o castigo e o prêmio final
Que merece um poeta na escola da vida.
Quero ter-te no céu ou talvez no inferno.

(Ismael Nery)

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Abismo

Eu quero absorver intensamente toda a tristeza do mundo
As esperanças não alcançadas
Os filhos que não nasceram
O pranto das mães desconsoladas...
Quero sentir profundamente toda a dor
A dor de não ter amor, não ter paz,
Não ter futuro.
Pelo trabalho rotineiro de cada dia
A comida sem graça e fria
A desigualdade, a injustiça, o olhar distante,
A dor, toda a dor da infelicidade.
Quero aguardar a catástrofe silenciosamente
Com o meu cansaço estafante e descomedido
Pelo excesso das palavras, das mentiras, das ilusões
Dos pesadelos, tantos.
O horizonte se distanciando... longe... longe.
Quero chorar muito... Quero chorar muito
Sem nenhum constrangimento
Sem parar, sem parar.
Quero ser tragado pela realidade
E me esconder na sombra da minha insignificância
Para que num momento distante -- se houver,
Eu possa despertar para um mundo
Agradável e melhor.

(Nilson Oliveira)