terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Alberto Caeiro)

Trecho de "Borges. Carta a Fernando Savater"

Nunca fui atraído por espíritos confinados numa única forma de cultura. Não se enraizar, não pertencer a nenhuma comunidade - esta foi e é minha divisa. Voltado para outros horizontes, sempre procurei saber o que se passava alhures. Aos vinte anos, os Bálcãs não podiam me oferecer mais nada. É o drama, e a vantagem também, de ter nascido num espaço "cultural" menor, qualquer que seja ele. O estrangeiro se tornara meu deus. Daí esta sede de peregrinar através das literaturas e das filosofias, de devorá-las com ardor doentio. O que acontece no Leste da Europa deve necessariamente acontecer nos países da América Latina e observei que seus representantes são infinitamente mais informados, mais "cultos" que os Ocidentais, incuravelmente provincianos. Nem na França ou na Inglaterra vi alguém que tivesse uma curiosidade comparável à de Borges, uma curiosidade exacerbada até a mania, até o vício, digo realmente vício porque, em matéria de arte e de reflexão, tudo o que não se transforma em entusiasmo um pouco perverso é superficial, logo irreal.

(Emil Cioran)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

São demais os perigos desta vida

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

(Vinicius de Moraes)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O pombo flâneur

Todo pombo é flâneur, mas o carioca ainda mais.
Conta Paulo Mendes Campos que era verão,
e dois deles tinham marcado um encontro,
às cinco azul em ponto,
nos céus do Rio de Janeiro.
Os tradicionais relógios da Mesbla e da Central marcavam a hora,
mas não marcavam o tempo,
(nenhum relógio marca o tempo).
Atravessando a cidade num fio de luz,
a vista ardendo de azul,
aquele pombo se atrasou
e, arrulhando,
em uma sentença se explicou:
“-- Desculpe , meu amor,
mas o dia estava tão bonito que eu vim andando;
eu tinha de vir andando!”

(Alex Varela)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Bananas podres 5

Fora
       no alto
nos céus de São Luís
o tempo zune
       luzindo acima dos telhados
manchados de musgos

       e
       debaixo
       deles
num sobradoda rua das Hortas
      como feras
bananas azedam em suas roupas negras
       e ali
       na polpa
o açucar acelera a vertigem
       em direção ao caos

ou seja
  a uma aurora outra
  sem luz
  quando a forma
  se desfaz
                em água childra

(enquanto Newton Ferreira
       discutia a guerra
       detrás do balcão
       de sua quitanda, próximo dali,
       na esquina de Afogados com a rua da Alegria)

                   e num alarido surdo
                   aquelas pobres frutas
                   - com o prazo já vencido -
                   vão aos soluços
                                perder-se na desordem

(Ferreira Gullar)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Bananas podres 3

era uma tarde quente na quitanda
             e aquele calor
             acendia o perfume das bananas apodrecendo
fato a que ninguém dava atenção

             - Um vidro de perfume? Foi mesmo?
             - O enfermeiro Josias me contou
             - Então ela era virgem... pro vidro ficar engatado...
             - Foi atrás, rapaz! disse meu pai às gargalhadas.
               Tu não estás entendendo!
Todos falavam e riam excitadíssimos numa algazarra de
pássaros a chilrear.
Os olhos de meu pai se encheram de água tanto ele ria.

De noitinha, todos se foram, e Newton Ferreira fechou a quitanda
              com as bananas lá dentro, recendendo.
Os seus risos vozes lembro-os sem ouvi-los,
mas o perfume daquelas frutas
               que feito um relâmpago 
               desceu na minha carne
               e ali ficou, parado,
               esse de vez em quando 
                                 volta a esplender

(Ferreira Gullar)