É a escuridão que engendra o mel
ou o futuro clarão no paladar
(como quase luz
na saliva, e mais:
em alguma parte da vida)
a escuridão
engendra
o olhar no corpo ansioso de abrir-se
à luz
e o mel que
aflui da noite da polpa
(e feito
dessa noite) flui
do podre da polpa
da noite do podre
(sob a casca)
tal como o suicídio
ou um alarme ou
abafada rotação
nas moléculas
(e igual que
no cosmos cintila)
uma balbúrdia de ácidos
negros
inventando
um quase alvorecer na quitanda.
E pense bem: também
um tumor é um ponto intenso
da matéria viva,
de alta temperatura
como a gestar um astro
de pus
(assim se engendram os sois,
os sons
no vazio abissal)
e assim também as vozes
do açúcar
(um negro
lampejo)
que assustam os mosquitos
(nuvens deles)
pairando o ar
dos escusos cantos
do depósito
de frutas
nos fundos da quitanda
rua da Alegria esquina de Afogados
e que faliu
e sumiu
para sempre
daquela esquina e do mundo, a quitanda,
bem como o seu dono, o falado
Newton Ferreira e seus amigos Luís Dedão,
o Cantuária e o Elias,
todos
que poderiam afirmar
que sim, de fato as bananas
já estavam passadas, quase inteiramente podres
aquela tarde
e que ali amontoadas num alguidar
fermentavam
exalando no ar o doce odor
de bananas morrendo
o que efetivamente ocorreu
na cidade de São Luís do Maranhão
ao norte do Brasil
por volta de 1940...
E foda-se.
(Ferreira Gullar)
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