terça-feira, 28 de novembro de 2017

"cheiro de urina"

cheiro de urina de fécula de urina adocicada e casca de banana de manga rosa quando esmagada no chão o calçamento desliza nos pés como se vocé estivesse entrando por uma região viscosa um aberto de vagina em mucosa pedrenta tudo cheirando vida ou morte ou vidamorte um cheiro podre de orgasmo rançoso e peixe e postas de carne ao sol a muleta solavanca um aleijão que come farinha com dedos apinhados cor cafre café ocre moca o peito opoja debaixo da fazenda rala e emborca para uma zona tórrida de coxas colantes e grelo-fio-de-mel agora é a mulata de olhos bistrados que reolha um espelho de lata e esmalte e correm para o oval de reflexos fósforos faíscas um cio remontado de cachorros também cheiros gritos trilos psius o fartum da rua em chaga exposta mas tudo reverte para um céu de ouro um céu de talha dourada arcos e rearcos numa florada de florões com atalantes e cariátides e anjos-fémea de brinco e coifa de cortezã índios e cocares também na selva poliáurea onde troncos se desrolam e se desnastram em cachos e mechas de amarelo-ovo garança e grená poém chagas num cristo marfinizado de pele cinamomo e o cristo se crucifica no resplendor de prata que emite raios e ferrões logo mais estarei falando da festa de iansã e de como no mercado das sete portas branco-e-vermelho de bandeirolas pés trançaram capoeiras de mãos ariscas num arame sonoro e monótono o livro recede diante do cumulado arrebol de torrões de ouro mas se aplaca num claustro de azulejos legíveis e lavados gargareja a fontana por um fio de água murmurina e o silêncio de filtros e feltros expulsa os cristos gangrenados para o amarelo-hepatite do sol visguento e bexigoso feito um rosto do alto da alegria vem bárbara fernandes aliás baby babynha vem dançando de ubarana amaralina alegria a dança de iansã que protege das trovoadas e se desnalga e desgarupa ou a santa nela minha mãe coroada de um diadema de brilhos e a pequena espada no braço colado ao corpo quase roçando por vocé rente rente ao ritmo de couros e agogôs no terreiro fechado de calor e suor onde tudo parece não caber mas cabe e dança e bate palmas e grita em nagô vocês têm que comer pelo menos a comida da santa aqui não tem cachaçada é ordem e respeito se saem antes até parece que não gostaram até parece desfazimento no fio do pescoço um dente de marfim miniaturado e na semana que vem tem outra festa festa grande vocês chegam ficam conosco passam aqui a noite de manhã na praia comem conosco e depois é festa festança mesmo a santa comia arroz com frango acarajé caruru tudo dourado de dendé pois as mãos continuavam batendo a noite que balançava das bandeirolas por furos de carvão ele regia as coisas e as pessoas media e comedia o mulato canela dono sabedor da liturgia era ele quem falava de respeito e de ordem quem propunha a comida e a festa grande bárbara babynha olhos em alvo rodopia no espanto do sagrado e agora só me resta uma frase que veio dar aqui por acaso e que eu repito como veio sem pensar repito como o om da mandala refalo remôo repasso colorless green ideas sleep furiously dormem incolores idéias verdes dormem furiosamente verdes dormem furiosamente

(Haroldo de Campos)

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