domingo, 24 de fevereiro de 2019

Morte da formiga

Levantou-se como um cavalo furioso
e abriu no ar seus bracinhos tênues.

Menor que qualquer letra:
mais fina que qualquer fio.

E eu pensei como seria o sofrimento
naquele corpo mínimo?
Porque sempre se sofre.

E eu pensei que seria o sol que a queimava
no ardente ladrilho.

E aproximei-lhe uma gota d'água
e um grão de terra fresca.
E ela se retorceu entre a água e a terra.
E era um silêncio terrível o da sua pequenez.

Depois caiu vencida.
Menor que um cílio. Menor.
E nem ela certamente
- mas apenas eu, e por quê? -
soube da sua morte.

Alto, vasto, azul,
como era belíssimo o céu
em redor deste mundo!

(Cecília Meireles)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Lua, conchas, fogo e rimas

À boca seus olhos de lua conferem
ares de um mar que amanhece,
de cujas águas emergem, qual um
cinturão de conchas, brancos dentes
no instante que, como um sol nascente,
um sorriso se insinua inaugurando
no horizonte de seu rosto a luz nova.

Mas o coração é de fogo, do
tipo que queima pelo excesso
os distraídos, os desvalidos,
espalhando um calor de que se
destila aquelas palavras de amor
que tão bem rimam com dor, e que
até à distância alcança, faz cintilar.

(Bruno Holmes Chads)