quinta-feira, 31 de maio de 2018

Acidente na sala

Movo a perna esquerda
de mau jeito
e a cabeça do fêmur
atrita
com o osso da bacia
sofro um tranco

e me ouço
perguntar:
aconteceu comigo
ou com meu osso?

e outra pergunta:
eu sou o meu osso?
ou sou somente a mente
que a ele não se junta?

e outra:
se osso não pergunta,
quem pergunta?
alguém que não é osso,
(nem carne)
em mim habita?

alguém que nunca ouço
a não ser quando
em meu corpo
um osso com outro osso atrita?

(Ferreira Gullar)

Figura-fundo

A pintura, digamos,
é mentira

isto é:
uma pera
pintada
não cheira

não se dilui
em xarope,
água rala e azeda, é
pintura e por isso
dura
mais que qualquer pera verdadeira

e por isso também, digamos,
a pera pintada a falsa
pera
por ser mentira
(por ser
cultura e não natura)
desta sorte
nos alivia
da perda e do podre
da morte

e se a mentira fosse verdadeira?
como fazê-la?
mas escute:
o que é falso
é a pera que a pintura figura
não a pintura
a cor
o traço
a pasta
a fatura
por que então
não fazer
em vez da pintura-pera
a pintura pura?

a verdade é que
a fruta pintada
não tem carnadura
não se pode comê-la
– é empaste, tintura
na tela
mas pode – e por isso –
ser bela
e, de outra maneira,
verdadeira

é que a fruta-pintura
é apenas figura
sobre um fundo
de tela
(de tinta
de pasta)
mas
e se a beleza
não basta?

e se o pintor
quer fazê-la
nascer da pasta
do fundo
(do fundo do fundo)
como a pera real nasce do mundo?

(onde começa a pera?
na pereira? Onde
começa a pereira?
em que dia
em que hora
em que século
surgiu
a árvore da pera?

a cor
da pera? o sabor
da fruta pera?)

E o pintor então dissolve
a figura da pera
na pasta escura do fundo
para
sem mentira
dizê-la
e nela
dizer o mundo

Pintar a partir de então
é despintar
fundir a forma
na escuridão
(na pasta, na lama)
fundir os brancos
os verdes os azuis
na suja
matéria sem luz

e assim
pelo avesso
o pintor
chega ao fim
isto é, ao começo:
da pasta escura
(do fundo pintado)
ressurge a figura

(ao contrário
de antes, quando
da figura
nascia o fundo).

(Ferreira Gullar)