sexta-feira, 21 de junho de 2019

Biografia

Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
e não serei eu.

Repetirás o que ouviste, 
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato,
e nada disso serei eu.

Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
e continuarei ausente.

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
isso seria eu.

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
Como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres como a cascata pelas pedras.
Que mortal nos poderia prender?

(Cecília Meireles)

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O jasmim

me invade as ventas
no limite do veneno

assim de muito perto
esse aroma rude é um oculto fogo verde
(quase fedor)
que me lesiona
as narinas

entre o orgasmo e a morte
mal pergunto
o que é isto um cheiro?
quem o faz?
a flor e eu?
um invento
milenar da flora?
quando? desde quando?
já estaria na massa das estrelas o cheiro da alfazema?

Nasce o perfume com as florestas
um silêncio a inventar-se nas plantas
vindo da terra escura
como caules, talos ramos folhas
o aroma
que se torna o arbusto – um jasmineiro.

Nos jardins dos prédios (na rua senador Eusébio,
por exemplo), nos matagais,
são usinas de aromas
a fabricar jasmim anis alfazema

(alguns cheiros são perversos
como o anis
que a muitos poetas endoidou
durante a belle époque;
já o da alfazema
dorme manso nas gavetas de roupas
em São Luís
e reacende o perdido)
Tudo isto para dizer que ontem à noite
arranquei flores de um jasmineiro
no Flamengo
e vim com elas
— um lampejo entre as mãos —
pela rua
sorvendo-lhe o aroma selvagem
enquanto foguetes Tomahawk  caíam sobre Bagdá.

(Ferreira Gullar)

Anti-Elegia nº 2

Olho para tudo
Com o olhar ambíguo
De quem vai se despedir do mundo
Eis a última curva o último filme
Eis o último gole d’água a última mulher
Eis o último fox-blue

Já estou sentindo
As violetas crescerem sobre mim.

(Murilo Mendes)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Acreditei que se amasse de novo

Acreditei que se amasse de novo
Esqueceria outros
Pelo menos três ou quatro rostos que amei.
Num delírio de arquivística
Organizei a memória em alfabetos
Como quem conta carneiros e amansa
No entanto flanco aberto não esqueço
E amo em ti os outros rostos.

(Ana Cristina Cesar)

Quando eu morrer

Quando eu morrer,
anjos meus,
fazei-me desaparecer, sumir, evaporar
desta terra louca
permiti que eu seja mais um 
desaparecido
da lista de mortos de algum campo de
batalha
para que eu não fique exposto
em algum necrotério branco
para que não me cortem o ventre
com propósitos autopsianos
para que não jaza num caixão frio
coberto de flores mornas
para que não sinta mais os afagos
desta gente tão longe
para que não ouça reboando eternos
os ecos de teus soluços
para que perca-se no éter
o lixo desta memória
para que apaguem-se bruscos
as marcas do meu sofrer
para que a morte só seja
um descanso calmo e doce
um calmo e doce descanso.

(Ana Cristina Cesar)