terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite
da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser
humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com
outro número e outra vontade
de acreditar que daqui pra diante
vai ser diferente.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O móvel da sala

Ele é de madeira,
cristal e bonito. Tem
porta e fecha dentro de si
mais do que contém.
O mofo em seu interior diz
isso que guarda: é a mim.
Mesmo cheio de velharias,
os seus parcos espaços que
restam são fendas minhas
de sonho. Outro dia, presente
de casamento; hoje, mero
móvel, brisa de tempos
idos, já sem data. Mas o tanto
esquecido lá dentro talvez 
importe menos do que o
que se passou em seu
entorno, que deixou em
sua madeira marcas que
as palavras que nada
dizem tentam lhe arrancar:
restos de risos, de perfumes
doces em peles velhas,
fumaças dos cigarros
em movimentos de sedução
nos ares do interior da casa
hoje demolida em que
morava a família em ruína.


(Bruno Holmes Chads)

domingo, 15 de dezembro de 2019

Canção noturna da baleia

a brancura do branco
a negrura do negro
ródtchenko maliévitch
o mar esquece
jonas me conhece
só ahab não soube
a noite que me coube
alvorece
call me moby.

(Augusto de Campos)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A suposta existência

Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?

O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?

Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?


(Carlos Drummond de Andrade)