eu não tenho palavras, exceto duas
ou três que me acompanham desde sempre
desde que me desentendo por gente,
nas priscas eras em que era eu mesmo.
agora sou uma espécie de arremedo,
despido das minhas divinaturas.
já não me atrevo ao ego sum qui sum.
guardo entanto em meu bazar de espantos
a palavra esplendor, a palavra fúria,
às vezes até me arrisco à palavra amor,
mesmo sabendo por trás de suas plumas
a improvável semântica das brumas
o rastro irremediável de outro verso
ou quem sabe a sintaxe do universo.
(Geraldo Carneiro)
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
Da irresolução
Por não se estar preparado
perde-se a vida inteira.
A preparação, porém,
pra ser completa e certeira,
exigiria no mínimo
uma existência e meia.
Compreende-se, portanto,
aquele que titubeia
ao se ver face a face
com tamanho compromisso,
e termina decidindo
viver mesmo de improviso.
(Paulo Henriques Britto)
perde-se a vida inteira.
A preparação, porém,
pra ser completa e certeira,
exigiria no mínimo
uma existência e meia.
Compreende-se, portanto,
aquele que titubeia
ao se ver face a face
com tamanho compromisso,
e termina decidindo
viver mesmo de improviso.
(Paulo Henriques Britto)
sábado, 10 de novembro de 2018
Voz
Orelha, ouvido, labirinto:
perdida em mim a voz de outro ecoa.
Minto:
perversamente sou-a
(Antonio Cicero)
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
A Sorte é uma mulher vadia
(Trad. de André Vallias)
A Sorte é uma mulher vadia
Que não se aquieta no lugar;
Te beija, abraça, acaricia,
Desaparece num piscar.
Senhora Azar é toda amor,
Te prende firme ao coração;
Diz não ter pressa e faz tricô,
Esparramada em teu colchão.
(Heinrich Heine)
A Sorte é uma mulher vadia
Que não se aquieta no lugar;
Te beija, abraça, acaricia,
Desaparece num piscar.
Senhora Azar é toda amor,
Te prende firme ao coração;
Diz não ter pressa e faz tricô,
Esparramada em teu colchão.
(Heinrich Heine)
Vermeer
(Trad. Regina Przybycien)
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tigela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
(Wisława Szymborska)
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tigela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
(Wisława Szymborska)
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