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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Lixo sem luxo

Ele sabe que será jogado
na lata de lixo da história,
mas esperneia.
Tira de sua cabeça,
como um coelho morto
de uma podre cartola,
ideias sem serventia.
Os medíocres que o seguem
aplaudem sua iniciativa
e votam em assembleia
os dejetos que se transformam
em decretos.

(Ricardo Silvestrin)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Outro

Nem tudo é espelho.
Além de si, o alheio
se abre ao seu olho
pra dizer a que veio.

Um deus imperfeito,
como todo humano,
ora bonito, ora feio,
depende do ângulo.

Um passo a dentro
cessa o julgamento.
O critério de antes
diante do mistério,

silencia, balbucia,
e, só quando desiste
de dizer a si mesmo,
um outro existe.

(Ricardo Silvestrin)

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Sacos

Estamos repletos de inutilidades,
suas, minhas,
inutilidades de família,
de valor inestimável.

Quinquilharias, ninharias,
boiando no pó, atiradas em caixas,
envelopes rasgados, gavetas.

Ninguém se arrisca a botar fora
esses tesouros de um reino perdido
entre os guardados.

Em quantos sacos de lixo,
sacos grandes de cem litros,
vai caber todo o passado?

(Ricardo Silvestrin)

sábado, 25 de novembro de 2017

Bilhete

Não me parecias frágil,
via-te doce.
Talvez fosses mesmo forte,
é preciso ser valente
pra decretar a própria morte.
Tinha-te por calmo.
Que rio obscuro e discreto
te puxava para o fundo,
sem saber nadar,
sem ninguém saber de nada?
Não deixaste uma carta,
um poema, um bilhete de suicida.
Como se quisesses dizer
que a morte
não deve explicações à vida.

(Ricardo Silvestrin)

Palavra não é coisa

palavra não é coisa
que se diga
quem toma a palavra
pela coisa
diz palavra com palavra
mas não diz coisa com coisa
a palavra pode ser pesada
a coisa, leve
e vice-versa não é coisa alguma
a palavra coisa
não é a coisa palavra
palavra e coisa
jamais serão a mesma coisa

(Ricardo Silvestrin)