quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A morte da avó

Enquanto a lua pende no céu estrelado e a minha filha brinca no chão da sala, penso naquela que se foi hoje. Eixo que eu considerava fixo, era referência de quem eu sou para mim. Embora com idade já bastante avançada, ela foi cedo demais. Não tem morte que não seja precoce. Também receio que as lembranças que tenho com ela, aquelas que só contavam com o seu testemunho, se esvaziem e tomem a forma de delírio, pois não havendo mais com quem falar acerca delas, restarão solitárias, no limite do inexistente, o que só confirma que o único sentimento verdadeiramente universal é mesmo o da solidão, que o choro por toda e qualquer morte é o choro pela nossa própria morte. Quando eu chamar pelo seu nome, que outra resposta terei senão esse mesmo silêncio que envolve esta lua escandalosamente indiferente aos nossos dramas e às nossas dores? Não sei até quando vou trazer comigo essa sensação de que ela está ao alcance de um telefonema. Quando não mais sentir que está próxima e finalmente compreender que a distância da morte é maior do que toda medida, então o tempo dos fatos e o tempo do meu coração estarão aprumados novamente. Concluindo, meus caros, não sou eu quem estranha a morte; mas parece que há algo em mim que reclama pela eternidade.

(Bruno Holmes Chads)

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