sábado, 25 de novembro de 2017

Organismo

o organismo quer perdurar
o organismo quer repet
o organismo quer re
o organismo quer
o organism
o r g a s m
o o

(Décio Pignatari)

Remorso por qualquer morte

Livre da memória e da esperança,
ilimitado, abstrato, quase futuro,
o morto não é um morto: é a morte.
Como o Deus dos místicos,
de Quem devem negar-se todos os predicados,
o morto ubiquamente alheio
não é senão a perdição e ausência do mundo.
Tudo dele roubamos,
não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:
aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,
ali a calçada onde sua esperança espreitava.
Até o que pensamos poderia estar pensando ele também;
repartimos como ladrões
o caudal das noites e dos dias.

(Jorge Luis Borges)

O travesti

Uns seres desconformes à natura.
Sendo a um só tempo criaturas fêmeas,
porém aparelhados como machos.
Em suma, anfíbios.
Conferir os mencionados na Saturnália
e na comédia grega. Ver Macróbios,
Aristófanes etc.
Aqui, no entanto, tais apoteoses do
contra-censo são divinizadas, e
esses seres mesclados se comprazem
em tais cerimoniais de ambiguidades,
se me permitem sugerir o neologismo,
que os machos, seus fregueses, se
desvairam por conhecê-los no sentido
bíblico, assim como Jacó fez com Raquel,
e de outros modos mais extravagantes
que por pudor não ei de publicar.

(Geraldo Carneiro)

A uma razão

Um bater de teu dedo contra um tambor descarrega
todos os sons e dá início a uma nova harmonia.
Um passo teu é o levante de novos homens, e os põe
em marcha.
Tua cabeça se vira: o novo amor!
Tua cabeça se volta, – o novo amor!
“Muda nossos destinos, acaba com as calamidades, a
começar pelo tempo”, cantam-te estas crianças, diante
de ti.
“Semeia, não importa onde, a substância de nossas
fortunas e desejos”, pedem-te.
Vinda de sempre, quem irá contigo por toda parte.

(Arthur Rimbaud)

Elevação

(Trad. Fernando José Fagundes Ribeiro)

Além dos lodaçais, além dos vales, mares,
Montanhas, selvas, nuvens, da cúpula anil,
Bem para além do sol, e do éter mais sutil,
Para além dos confins das rodas estelares,

Pensamento, deslizas tu com rapidez.
E como nadador que mergulha nas ondas,
Alegre, a imensidão mais profunda tu sondas,
Com indizível e com máscula avidez.

Bem alto sobrevoa estes miasmas malditos;
Purifica-te no ar mais leve, superior,
E prova como se a um puríssimo licor
O fogo claro sobre os amplos infinitos.

Distante dos enfados e vasto sofrer,
Que esmagam com seu peso a existência brumosa,
Feliz daquele que com asa vigorosa
Aos campos luminosos vai se arremeter!

Aquele que as idéias, qual aves miúdas
Para os céus na manhã em livre impulso vão,
- Que plana sobre a vida, em tranqüila apreensão
Da linguagem das flores e das coisas mudas.

(Charles Baudelaire)

Pomba Gira

Medo que a pomba-gira me dissesse Deus, o sexo, a morte.
Medo que o seu charuto,
a sua cachaça me anunciassem
o centro fumegante da terra antes que eu abatesse minha cede de frescor e delicadeza.
A gargalhada preta, vermelha e quente
me apavorava. Aquela diaba
de fumo e ferros diria o que nem eu mesmo alcançava em mim? Rugiria aos quatro cantos
aquilo que fosse de mim a borra no fundo, o avesso, o três, o vazio,
a folha venenosa que recusei, que evitei mastigar e permanecia quieta como um cacto
secreto? Medo
daquela mulher absoluta, rainha
errada, metade deusa,
metade puta, que era
e não era, e cuja excêntrica presença,
encarnação momentânea, era o canto e a dança,
dos sudários, das aparições, dos espectros e assombramentos, das sombras e almas padecentes
a vagar desgraçados pelas esquinas. E eu, que só queria fingir que não se morre,
que só queria não sofrer, escondia minha água mais íntima quanto mais temia
aquele anjo todo fogo que girava sobre um chão de punhais, que girava sobre um chão
de pólvora, que girava, cabelos, dentes, que girava. Que gira na memória.

(Eucanaã Ferraz)

A instabilidade das coisas do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz, se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na luz, falta a firmeza,
Na formosura, não se dê constância,
E na alegria, sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim, pela ignorância,
E tem qualquer dos bens, por natureza:
A firmeza, somente na inconstância.

(Gregório de Matos)