domingo, 18 de dezembro de 2022

Fora da gramática

Uma inquietação que não tem forma
Fora da gramática, quem sabe,
Possa se dizer palavras tortas
Que falem daquilo que não cabe.

Um incômodo, evento mudo,
Dor sem cor, maior que o mundo
Pode em flor tudo transformar
Se por sorte esbarra ou tropeça
Em restos, sobras, coisas
Que pra muitos têm que jogar fora.

Da aflição, então, faz-se uma dobra
Um clarão que chega sem aviso
O que não havia agora aflora
Força sem medida, novo brilho.

Quando estala o espelho, o divino
e o outro lado se confundem,
outra voz pode então brotar
do porvir, da vida sem destino,
do amor pelo acaso
do tempo que não tem hora.

Uma inquietação que não tem forma
Fora da gramática, quem sabe,
Possa se dizer palavras tortas
Que falem daquilo que não cabe.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Outro

Nem tudo é espelho.
Além de si, o alheio
se abre ao seu olho
pra dizer a que veio.

Um deus imperfeito,
como todo humano,
ora bonito, ora feio,
depende do ângulo.

Um passo a dentro
cessa o julgamento.
O critério de antes
diante do mistério,

silencia, balbucia,
e, só quando desiste
de dizer a si mesmo,
um outro existe.

(Ricardo Silvestrin)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A casa não se acaba

A casa não se acaba na soleira,
nem na laje, onde pássaros se escondem.
A casa só se acaba quando morrem
os sonhos inquilinos de um homem.

Caminha no meu corpo abstrata e viva,
vibrando na lembrança como imagem
de tudo que não vai morrer, embora
as maçãs apodreçam na paisagem.

Sob o ríspido sol do meio-dia,
me desmorono diante dela, e tonto
bato a porta de ser ontem alegria.

O silêncio transborda pelo forro.
E eu já não sei o que fazer de tanto
passado vindo em busca de socorro".

(Antonio Carlos Secchin)

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Penso, logo cago

Eu não nasci,
pois não me lembro de isso ter acontecido.
Não morri,
pois também não me lembro que isso tenha acontecido.
E, se não nasci nem morri, das duas uma:
ou sou Deus ou não existo.
Ora, como nem tudo que eu quero acontece
e nem tudo que acontece eu quero,
não sou Deus.
Portanto, não existo.
Logo, não penso.
Então este raciocínio é falso,
e nesse caso eu não passo de um mero amnésico.
De qualquer maneira, nada tem importância:
se perco a memória,
tanto faz que tudo seja ou não verdade.
Basta dar a descarga
e passar pro papel.

(Glauco Mattoso)

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Soneto para a Mão Direita de S. Francisco de Assis

Estranha mão que sobre mim te espalmas
limpa como os primeiros sofrimentos
vem para adormecer meus pensamentos
com essa tua ternura de águas calmas.

Essa mansa canção de gestos lentos
mãos que salvaste pássaros e almas
afaga as minhas mãos em cujas palmas
crescem desejos de estrangulamentos.

E me salva estas mãos de magros dedos.
Mostra-lhes a beleza dos martírios
na renúncia dos gozos e dos brinquedos

e todos vejam quando, enfim desfeitas
as mãos do poeta rebentando em lírios
lírios, carícias que não foram feitas.

(Ferreira Gullar)

Eu Ninguém

Eu ninguém
Eu ninguém comigo só
Posso ser
Travesti de quem quiser
Manequim de bazar
Ou rainha do lar
Madame Butterfly
Barbie Suzie Dollu Polly Pocket

Tudo bem
Mas eu posso ser também
Emanuelle
Lady Miss Mademoiselle
Num harém meretriz
Ou apenas atriz
O espelho me diz
Gueixa Vênus Eva Dama Virgem Mãe

(Arnaldo Antunes)

Chico Viola

Deus não anda na cidade.
Os dotô que véve sempre
nos livro a pesquisá,
nas fôia morta dos livro
nunca Deus há de encontrá.
Se vancê aí num é incréu,
e qué devéra sabê,
qué sabê Deus onde tá..
Não percure essa Criatura
nem nas igreja dos padre,
nem nos livro, nem no céu.
Sabe adonde é que Deus tá ?
Deus canta pelo biquinho
saudoso dum sabiá.
Deus anda cherando os mato
pru dentro dos capoerão.
Anda zanzando de noite
com a lua lá do sertão.
Ele canta enrodiado
no coração dum caboco
gemendo num desafio.
Ele véve nas froresta..
no meio das mata virge
tomando banho nos rio.
O vento, derruba um casa
num bofetão..né ?
Mas porém num tem um ente
que andando pelas fechado
das terra La do sertão,
Visse uma vez, sêo dotô,
a casa dum passarinho
que o vento jogou no chão.
É pru que Deus,
que é mais grande
que o céu e a terra,
e se esconde na ponta fina
dum espinho...
em noite de ventania
na da pulas mataria
atrepado pulas arve
pra segurança dos ninho.
Deus, num anda na cidade.
Deus é o ente que mais sofre
Pru que Ele é o Pai da sodade.
Deus é Deus pru que é mistéro
Deus num lê...
Deus num escreve.
Vancê creia que Deus passa
pela ciência dos homi,
como o sor passa nas nuvem
pru riba dum cemitéro.
Deus um Sábio anarfabeto.
E quando Deus qué se ri,
se mete dentro dos óio
duma muié..pra feri.
Pru sabe que a muié,
Ferindo memo consola.
Mas porém quando o sinhô
tá triste...tá com sodade
da Santa virge Maria,
Deus Nosso Sinhô se esconde
nas corda duma viola,
pra chorá memo á vontade
a sua malincunia.

(Catulo da Paixão Cearense)