Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.
(Paulo Henriques Britto)
domingo, 5 de maio de 2019
sábado, 20 de abril de 2019
Ela canta, pobre ceifeira
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
(Fernando Pessoa)
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
(Fernando Pessoa)
sábado, 6 de abril de 2019
Momento
Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
Não a do tédio
desesperante e doentia,
Não a nostálgica
nem a cismadora.
Esta nossa
fininha melancolia
que vem não sei de onde.
Um pouco talvez
das horas solitárias
passando sobre a ilha
ou da música
do mar defronte
entoando
uma canção rumorosa
musicada com os ecos do mundo.
Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
a que suspende inesperadamente
um riso começado
e deixa um travor de repente
no meio da nossa alegria
dentro do nosso coração,
a que traz à nossa conversa
qualquer palavra triste sem motivo?
Melancolia que não existe quase
porque é um instante apenas
um momento qualquer.
(Jorge Barbosa)
esta nossa
fininha melancolia?
Não a do tédio
desesperante e doentia,
Não a nostálgica
nem a cismadora.
Esta nossa
fininha melancolia
que vem não sei de onde.
Um pouco talvez
das horas solitárias
passando sobre a ilha
ou da música
do mar defronte
entoando
uma canção rumorosa
musicada com os ecos do mundo.
Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
a que suspende inesperadamente
um riso começado
e deixa um travor de repente
no meio da nossa alegria
dentro do nosso coração,
a que traz à nossa conversa
qualquer palavra triste sem motivo?
Melancolia que não existe quase
porque é um instante apenas
um momento qualquer.
(Jorge Barbosa)
quarta-feira, 13 de março de 2019
Poética
Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
Que é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
(Cassiano Ricardo)
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
Que é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
(Cassiano Ricardo)
sexta-feira, 8 de março de 2019
O poeta e seu leitor
Releio amado poeta
e não reencontro o que li.
Sem dúvida: é o mesmo livro
que tanto li e reli.
Onde as graves emoções
em que outrora me perdi,
os densos sopros de alma
em que chorei ou sorri?
Por mais que releia o livro,
não vejo o que vi ali.
Terá mudado o poeta,
ou me enganei no que li?
Não, não mudou o poeta,
nem me enganei no que li
na voz serena dos versos
em que chorei ou sorri:
é que o leitor do poeta
foi um que em mim já perdi.
(Ruy Espinheira Filho)
e não reencontro o que li.
Sem dúvida: é o mesmo livro
que tanto li e reli.
Onde as graves emoções
em que outrora me perdi,
os densos sopros de alma
em que chorei ou sorri?
Por mais que releia o livro,
não vejo o que vi ali.
Terá mudado o poeta,
ou me enganei no que li?
Não, não mudou o poeta,
nem me enganei no que li
na voz serena dos versos
em que chorei ou sorri:
é que o leitor do poeta
foi um que em mim já perdi.
(Ruy Espinheira Filho)
domingo, 24 de fevereiro de 2019
Morte da formiga
Levantou-se como um cavalo furioso
e abriu no ar seus bracinhos tênues.
Menor que qualquer letra:
mais fina que qualquer fio.
E eu pensei como seria o sofrimento
naquele corpo mínimo?
Porque sempre se sofre.
E eu pensei que seria o sol que a queimava
no ardente ladrilho.
E aproximei-lhe uma gota d'água
e um grão de terra fresca.
E ela se retorceu entre a água e a terra.
E era um silêncio terrível o da sua pequenez.
Depois caiu vencida.
Menor que um cílio. Menor.
E nem ela certamente
- mas apenas eu, e por quê? -
soube da sua morte.
Alto, vasto, azul,
como era belíssimo o céu
em redor deste mundo!
(Cecília Meireles)
e abriu no ar seus bracinhos tênues.
Menor que qualquer letra:
mais fina que qualquer fio.
E eu pensei como seria o sofrimento
naquele corpo mínimo?
Porque sempre se sofre.
E eu pensei que seria o sol que a queimava
no ardente ladrilho.
E aproximei-lhe uma gota d'água
e um grão de terra fresca.
E ela se retorceu entre a água e a terra.
E era um silêncio terrível o da sua pequenez.
Depois caiu vencida.
Menor que um cílio. Menor.
E nem ela certamente
- mas apenas eu, e por quê? -
soube da sua morte.
Alto, vasto, azul,
como era belíssimo o céu
em redor deste mundo!
(Cecília Meireles)
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
Lua, conchas, fogo e rimas
À boca seus olhos de lua conferem
ares de um mar que amanhece,
de cujas águas emergem, qual um
cinturão de conchas, brancos dentes
no instante que, como um sol nascente,
um sorriso se insinua inaugurando
no horizonte de seu rosto a luz nova.
Mas o coração é de fogo, do
tipo que queima pelo excesso
os distraídos, os desvalidos,
espalhando um calor de que se
destila aquelas palavras de amor
que tão bem rimam com dor, e que
até à distância alcança, faz cintilar.
(Bruno Holmes Chads)
ares de um mar que amanhece,
de cujas águas emergem, qual um
cinturão de conchas, brancos dentes
no instante que, como um sol nascente,
um sorriso se insinua inaugurando
no horizonte de seu rosto a luz nova.
Mas o coração é de fogo, do
tipo que queima pelo excesso
os distraídos, os desvalidos,
espalhando um calor de que se
destila aquelas palavras de amor
que tão bem rimam com dor, e que
até à distância alcança, faz cintilar.
(Bruno Holmes Chads)
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