sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Lua, conchas, fogo e rimas

À boca seus olhos de lua conferem
ares de um mar que amanhece,
de cujas águas emergem, qual um
cinturão de conchas, brancos dentes
no instante que, como um sol nascente,
um sorriso se insinua inaugurando
no horizonte de seu rosto a luz nova.

Mas o coração é de fogo, do
tipo que queima pelo excesso
os distraídos, os desvalidos,
espalhando um calor de que se
destila aquelas palavras de amor
que tão bem rimam com dor, e que
até à distância alcança, faz cintilar.

(Bruno Holmes Chads)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Alberto Caeiro)

Trecho de "Borges. Carta a Fernando Savater"

Nunca fui atraído por espíritos confinados numa única forma de cultura. Não se enraizar, não pertencer a nenhuma comunidade - esta foi e é minha divisa. Voltado para outros horizontes, sempre procurei saber o que se passava alhures. Aos vinte anos, os Bálcãs não podiam me oferecer mais nada. É o drama, e a vantagem também, de ter nascido num espaço "cultural" menor, qualquer que seja ele. O estrangeiro se tornara meu deus. Daí esta sede de peregrinar através das literaturas e das filosofias, de devorá-las com ardor doentio. O que acontece no Leste da Europa deve necessariamente acontecer nos países da América Latina e observei que seus representantes são infinitamente mais informados, mais "cultos" que os Ocidentais, incuravelmente provincianos. Nem na França ou na Inglaterra vi alguém que tivesse uma curiosidade comparável à de Borges, uma curiosidade exacerbada até a mania, até o vício, digo realmente vício porque, em matéria de arte e de reflexão, tudo o que não se transforma em entusiasmo um pouco perverso é superficial, logo irreal.

(Emil Cioran)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

São demais os perigos desta vida

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

(Vinicius de Moraes)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O pombo flâneur

Todo pombo é flâneur, mas o carioca ainda mais.
Conta Paulo Mendes Campos que era verão,
e dois deles tinham marcado um encontro,
às cinco azul em ponto,
nos céus do Rio de Janeiro.
Os tradicionais relógios da Mesbla e da Central marcavam a hora,
mas não marcavam o tempo,
(nenhum relógio marca o tempo).
Atravessando a cidade num fio de luz,
a vista ardendo de azul,
aquele pombo se atrasou
e, arrulhando,
em uma sentença se explicou:
“-- Desculpe , meu amor,
mas o dia estava tão bonito que eu vim andando;
eu tinha de vir andando!”

(Alex Varela)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Bananas podres 5

Fora
       no alto
nos céus de São Luís
o tempo zune
       luzindo acima dos telhados
manchados de musgos

       e
       debaixo
       deles
num sobradoda rua das Hortas
      como feras
bananas azedam em suas roupas negras
       e ali
       na polpa
o açucar acelera a vertigem
       em direção ao caos

ou seja
  a uma aurora outra
  sem luz
  quando a forma
  se desfaz
                em água childra

(enquanto Newton Ferreira
       discutia a guerra
       detrás do balcão
       de sua quitanda, próximo dali,
       na esquina de Afogados com a rua da Alegria)

                   e num alarido surdo
                   aquelas pobres frutas
                   - com o prazo já vencido -
                   vão aos soluços
                                perder-se na desordem

(Ferreira Gullar)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Bananas podres 3

era uma tarde quente na quitanda
             e aquele calor
             acendia o perfume das bananas apodrecendo
fato a que ninguém dava atenção

             - Um vidro de perfume? Foi mesmo?
             - O enfermeiro Josias me contou
             - Então ela era virgem... pro vidro ficar engatado...
             - Foi atrás, rapaz! disse meu pai às gargalhadas.
               Tu não estás entendendo!
Todos falavam e riam excitadíssimos numa algazarra de
pássaros a chilrear.
Os olhos de meu pai se encheram de água tanto ele ria.

De noitinha, todos se foram, e Newton Ferreira fechou a quitanda
              com as bananas lá dentro, recendendo.
Os seus risos vozes lembro-os sem ouvi-los,
mas o perfume daquelas frutas
               que feito um relâmpago 
               desceu na minha carne
               e ali ficou, parado,
               esse de vez em quando 
                                 volta a esplender

(Ferreira Gullar)