segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Bananas podres 3

era uma tarde quente na quitanda
             e aquele calor
             acendia o perfume das bananas apodrecendo
fato a que ninguém dava atenção

             - Um vidro de perfume? Foi mesmo?
             - O enfermeiro Josias me contou
             - Então ela era virgem... pro vidro ficar engatado...
             - Foi atrás, rapaz! disse meu pai às gargalhadas.
               Tu não estás entendendo!
Todos falavam e riam excitadíssimos numa algazarra de
pássaros a chilrear.
Os olhos de meu pai se encheram de água tanto ele ria.

De noitinha, todos se foram, e Newton Ferreira fechou a quitanda
              com as bananas lá dentro, recendendo.
Os seus risos vozes lembro-os sem ouvi-los,
mas o perfume daquelas frutas
               que feito um relâmpago 
               desceu na minha carne
               e ali ficou, parado,
               esse de vez em quando 
                                 volta a esplender

(Ferreira Gullar)

Nenhum comentário:

Postar um comentário