era uma tarde quente na quitanda
e aquele calor
acendia o perfume das bananas apodrecendo
fato a que ninguém dava atenção
- Um vidro de perfume? Foi mesmo?
- O enfermeiro Josias me contou
- Então ela era virgem... pro vidro ficar engatado...
- Foi atrás, rapaz! disse meu pai às gargalhadas.
Tu não estás entendendo!
Todos falavam e riam excitadíssimos numa algazarra de
pássaros a chilrear.
Os olhos de meu pai se encheram de água tanto ele ria.
De noitinha, todos se foram, e Newton Ferreira fechou a quitanda
com as bananas lá dentro, recendendo.
Os seus risos vozes lembro-os sem ouvi-los,
mas o perfume daquelas frutas
que feito um relâmpago
desceu na minha carne
e ali ficou, parado,
esse de vez em quando
volta a esplender
(Ferreira Gullar)
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