I
Coração triste falando ao sol.
(Imitado de Su-Tchon)
No arvoredo sussurra o vendaval do outono,
Deita as folhas à terra, onde não há florir
E eu contemplo sem pena esse triste abandono;
Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cair.
Como a escura montanha, esguia e pavorosa
Faz, quando o sol descamba, o vale enoitecer,
A montanha da alma, a tristeza amorosa,
Também de ignota sombra enche todo o meu ser.
Faz, quando o sol descamba, o vale enoitecer,
A montanha da alma, a tristeza amorosa,
Também de ignota sombra enche todo o meu ser.
Transforma o frio inverno a água em pedra dura,
Mas torna a pedra em água um raio de verão;
Vem, ó sol, vem, assume o trono teu na altura,
Vê se podes fundir meu triste coração.
Mas torna a pedra em água um raio de verão;
Vem, ó sol, vem, assume o trono teu na altura,
Vê se podes fundir meu triste coração.
II
A folha do salgueiro
(Tchan-Tiú-Lin)
(Tchan-Tiú-Lin)
Amo aquela formosa e terna moça
Que, à janela encostada, arfa e suspira;
Não porque tem do largo rio à margem
Casa faustosa e bela.
Que, à janela encostada, arfa e suspira;
Não porque tem do largo rio à margem
Casa faustosa e bela.
Amo-a, porque deixou das mãos mimosas
Verde folha cair nas mansas águas.
Verde folha cair nas mansas águas.
Amo a brisa de leste que sussurra,
Não porque traz nas asas delicadas
Não porque traz nas asas delicadas
O perfume dos verdes pessegueiros
Da oriental montanha.
Da oriental montanha.
Amo-a porque impeliu co’as tênues asas
Ao meu batel a abandonada folha.
Ao meu batel a abandonada folha.
Se amo a mimosa folha aqui trazida,
Não é porque me lembre à alma e aos olhos
A renascente, a amável primavera,
Pompa e vigor dos vales.
Não é porque me lembre à alma e aos olhos
A renascente, a amável primavera,
Pompa e vigor dos vales.
Amo a folha por ver-lhe um nome escrito,
Escrito, sim, por ela, e esse… meu nome.
III
Escrito, sim, por ela, e esse… meu nome.
III
O poeta a rir
(Han-Tiê)
(Han-Tiê)
Taça d’água parece o lago ameno;
Tem os bambus a formam de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
Tem os bambus a formam de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
As pontiagudas rochas entre flores,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam…
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
Dos pagodes o grave aspecto ostentam…
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
IV
A uma mulher
(Tchê-Tsi)
(Tchê-Tsi)
Cantigas modulei ao som da flauta,
Da minha flauta d’ébano;
Nelas minha alma segredava à tua
Fundas, sentidas mágoas.
Da minha flauta d’ébano;
Nelas minha alma segredava à tua
Fundas, sentidas mágoas.
Cerraste-me os ouvidos. Namorados
Versos compus de júbilo,
Por celebrar teu nome, as graças tuas,
Levar teu nome aos séculos.
Versos compus de júbilo,
Por celebrar teu nome, as graças tuas,
Levar teu nome aos séculos.
Olhaste ,e meneando a airosa frente,
Com tuas mãos puríssimas,
Folhas em que escrevi meus pobres versos
Lançaste às ondas trêmulas.
Com tuas mãos puríssimas,
Folhas em que escrevi meus pobres versos
Lançaste às ondas trêmulas.
Busquei então por encantar tua alma
Uma safira esplêndida,
Fui depô-la a teus pés…tu descerraste
Da tua boca as pérolas.
Uma safira esplêndida,
Fui depô-la a teus pés…tu descerraste
Da tua boca as pérolas.
V
O imperador
(Thu-Fu)
(Thu-Fu)
Olha. O Filho do Céu, em trono de ouro,
E adornado com ricas pedrarias,
Os mandarins escuta: — um sol parece
De estrelas rodeado.
E adornado com ricas pedrarias,
Os mandarins escuta: — um sol parece
De estrelas rodeado.
Os mandarins discutem gravemente
Coisas muito mais graves. E ele? Foge-lhe
O pensamento inquieto e distraído
Pela janela aberta.
Coisas muito mais graves. E ele? Foge-lhe
O pensamento inquieto e distraído
Pela janela aberta.
Além, no pavilhão de porcelana,
Entre donas gentis está sentada
A imperatriz, qual flor radiante e pura
Entre viçosas folhas.
Entre donas gentis está sentada
A imperatriz, qual flor radiante e pura
Entre viçosas folhas.
Pensa no amado esposo, arde por vê-lo,
Prolonga-se-lhe a ausência, agita o leque…
Do imperador ao rosto um sopro chega
De rescendente brisa.
Prolonga-se-lhe a ausência, agita o leque…
Do imperador ao rosto um sopro chega
De rescendente brisa.
“Vem dela este perfume”, diz, e abrindo
Caminho ao pavilhão da amada esposa,
Deixa na sala olhando-se em silêncio
Os mandarins pasmados.
Caminho ao pavilhão da amada esposa,
Deixa na sala olhando-se em silêncio
Os mandarins pasmados.
VI
O leque
(De-Tan-Jo-Lu)
(De-Tan-Jo-Lu)
Na perfumada alcova a esposa estava,
Noiva ainda na véspera. Fazia
Calor intenso; a pobre moça ardia
Com fino leque as faces refrescava.
Ora, no leque em boa letra feito
Havia este conceito:
Noiva ainda na véspera. Fazia
Calor intenso; a pobre moça ardia
Com fino leque as faces refrescava.
Ora, no leque em boa letra feito
Havia este conceito:
“Quando, imóvel o vento e o ar pesado,
Arder o intenso estio,
Serei por mão amiga ambicionado;
Mas volte o tempo frio,
Ver-me-eis a um canto abandonado”.
Arder o intenso estio,
Serei por mão amiga ambicionado;
Mas volte o tempo frio,
Ver-me-eis a um canto abandonado”.
Lê a esposa este aviso, e o pensamento
Volve ao jovem marido.
“Arde-lhe o coração neste momento
(Diz-ela) e vem buscar enternecido
Brandas auras de amor. Quando mais tarde
Tornar-se em cinza fria
O fogo que hoje lhe arde,
Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.”
Volve ao jovem marido.
“Arde-lhe o coração neste momento
(Diz-ela) e vem buscar enternecido
Brandas auras de amor. Quando mais tarde
Tornar-se em cinza fria
O fogo que hoje lhe arde,
Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.”
VII
As flores e os pinheiros
(Tin-Tun-Sing)
(Tin-Tun-Sing)
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flores
Os cálices vermelhos.
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flores
Os cálices vermelhos.
Contemplando os pinheiros da montanha,
As flores tresloucadas
Zombam deles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.
As flores tresloucadas
Zombam deles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.
Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneando ao vento
Os galhos pensativos.
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneando ao vento
Os galhos pensativos.
Volvi o olhar ao sítio onde escutara
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flores.
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flores.
VIII
Reflexos
(Thu-Fu)
(Thu-Fu)
Vou rio abaixo vogando
No meu batel e ao luar;
Nas claras águas fitando,
Fitando o olhar.
No meu batel e ao luar;
Nas claras águas fitando,
Fitando o olhar.
Das águas vejo no fundo,
Como por um branco véu,
Intenso, calmo, profundo,
O azul do céu.
Como por um branco véu,
Intenso, calmo, profundo,
O azul do céu.
Nuvem que no céu flutua,
Flutua n’água também;
Se a lua cobre, à outra lua
Cobri-la vem.
Flutua n’água também;
Se a lua cobre, à outra lua
Cobri-la vem.
Da amante que me extasia,
Assim, na ardente paixão,
As raras graças copia
Meu coração.
Assim, na ardente paixão,
As raras graças copia
Meu coração.
(Machado de Assis)
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