sábado, 6 de janeiro de 2018

Nuvens II

 (trad. Antonio Cicero)

Pelo ar andam plácidas montanhas
ou cordilheiras trágicas de sombra
que obscurecem o dia. Chamam-nas
nuvens. As formas podem ser estranhas.
Shakespeare observou uma. Parecia
um dragão. Essa nuvem de uma tarde
em sua palavra resplandece e arde
e continuamos a vê-la ainda.
Que são as nuvens? Uma arquitetura
do azar? Talvez Deus as necessite
para a execução de Sua infinita
obra e sejam fios da trama obscura.
Talvez a nuvem seja não menos vã
que o homem que a contempla na manhã.

(Jorge Luis Borges)

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