sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O açucar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça,
água na pele,
flor que se dissolve na boca.
Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina
e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há
hospital nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos vinte e sete anos
plantaram e colheram a cana
que viria a ser o açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga e dura
produziram este açúcar branco e puro
com que adoço meu café esta manha em Ipanema.

(Ferreira Gullar)

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O poema

Que será o poema,

essa estranha trama

de penumbra e flama

que a boca blasfema?

Que será, se há lama

no que escreve a pena

ou lhe aflora à cena

o excesso de um drama?

Que será o poema:

uma voz que clama?

Uma luz que emana?

Ou a dor que o algema?

(Ivan Junqueira)

domingo, 8 de novembro de 2020

A uma mulher

Só te quero para mim se te puder dar aos outros,
Porque os outros não são senão eu ampliado.
Quero ver-te beijada por todas as minhas bocas.
Quero ver-te abraçada por todos os meus braços.
Quero ver-te numa rótula e depois num altar
Distribuindo o castigo e o prêmio final
Que merece um poeta na escola da vida.
Quero ter-te no céu ou talvez no inferno.

(Ismael Nery)

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Abismo

Eu quero absorver intensamente toda a tristeza do mundo
As esperanças não alcançadas
Os filhos que não nasceram
O pranto das mães desconsoladas...
Quero sentir profundamente toda a dor
A dor de não ter amor, não ter paz,
Não ter futuro.
Pelo trabalho rotineiro de cada dia
A comida sem graça e fria
A desigualdade, a injustiça, o olhar distante,
A dor, toda a dor da infelicidade.
Quero aguardar a catástrofe silenciosamente
Com o meu cansaço estafante e descomedido
Pelo excesso das palavras, das mentiras, das ilusões
Dos pesadelos, tantos.
O horizonte se distanciando... longe... longe.
Quero chorar muito... Quero chorar muito
Sem nenhum constrangimento
Sem parar, sem parar.
Quero ser tragado pela realidade
E me esconder na sombra da minha insignificância
Para que num momento distante -- se houver,
Eu possa despertar para um mundo
Agradável e melhor.

(Nilson Oliveira)

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra.

(Paulo Leminski)

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Receita de poema

Um poema que desaparecesse
à medida que fosse nascendo,
e que dele nada então restasse
senão o silêncio de estar não sendo.

Que nele apenas ecoasse
o som do vazio mais pleno.
E depois que tudo matasse
morresse do próprio veneno.

(Antonio Carlos Secchin)

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Palavra final

Falo como as plantas.
Digo como as pedras.

Clamo como o réptil,
o miasma e o verme.

Quantas vozes tenho
quando estou calado?

Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado

onde a escuridão
dispensa as palavras

a fala espantada
de quem sabe e cala.

(Lêdo Ivo)