Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
(Antonio Cicero)
sexta-feira, 15 de junho de 2018
Maresia
O meu amor me deixou
levou minha identidade
não sei mais bem onde estou
nem onde a realidade.
Ah, se eu fosse marinheiro
era eu quem tinha partido
mas meu coração ligeiro
não se teria partido
ou se partisse colava
com cola de maresia
eu amava e desamava
sem peso e com poesia.
Ah, se eu fosse marinheiro
seria doce meu lar
não só o Rio de Janeiro
a imensidão e o mar
leste oeste norte sul
onde um homem se situa
quando o Sol sobre o azul
ou quando no mar a Lua
Não buscaria conforto
nem juntaria dinheiro
um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.
(Antonio Cicero)
levou minha identidade
não sei mais bem onde estou
nem onde a realidade.
Ah, se eu fosse marinheiro
era eu quem tinha partido
mas meu coração ligeiro
não se teria partido
ou se partisse colava
com cola de maresia
eu amava e desamava
sem peso e com poesia.
Ah, se eu fosse marinheiro
seria doce meu lar
não só o Rio de Janeiro
a imensidão e o mar
leste oeste norte sul
onde um homem se situa
quando o Sol sobre o azul
ou quando no mar a Lua
Não buscaria conforto
nem juntaria dinheiro
um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.
(Antonio Cicero)
terça-feira, 5 de junho de 2018
Ver
Não pinto, não desenho,
posto que, como acreditam
os cegos no que tocam,
acredito eu no que vejo:
a solidez das coisas
me constrange de
fazer rabiscos,
traçar formas,
duplicar em semelhanças.
Não ousaria um tal sacrilégio.
Reproduzir é reduzir à miragem.
O que sobrevive à sua própria imagem?
De meus olhos dogmáticos me
resta o jogo de deslocar palavras,
que sei não serem coisas mas posições.
E se as mudo de lugar é
porque não as levo a sério.
Como figuras, brincando de montar
sentenças vejo no que dá para,
assim, alcançar algum princípio
de desmanche do todo visto;
o que parecia maciço não redunda
em ilusão, mas se multiplicam
as suas camadas, que são,
antes, dimensões de mim.
(Bruno Holmes Chads)
posto que, como acreditam
os cegos no que tocam,
acredito eu no que vejo:
a solidez das coisas
me constrange de
fazer rabiscos,
traçar formas,
duplicar em semelhanças.
Não ousaria um tal sacrilégio.
Reproduzir é reduzir à miragem.
O que sobrevive à sua própria imagem?
De meus olhos dogmáticos me
resta o jogo de deslocar palavras,
que sei não serem coisas mas posições.
E se as mudo de lugar é
porque não as levo a sério.
Como figuras, brincando de montar
sentenças vejo no que dá para,
assim, alcançar algum princípio
de desmanche do todo visto;
o que parecia maciço não redunda
em ilusão, mas se multiplicam
as suas camadas, que são,
antes, dimensões de mim.
(Bruno Holmes Chads)
sexta-feira, 1 de junho de 2018
Em si
Um instante acontece sem
tecido preexistente;
nenhum espaço, mínimo,
subjaz às coisas antes
de serem coisas.
É sobre um fundo de nada
que o que existe se desdobra,
pois unãom fora não tem:
só o que há, há.
Metamorfósica,
sem forma última
ou primeira,
em fluxo por um ralo
sem o outro lado,
de si para si mesma
a vida escoa
sem porquê.
tecido preexistente;
nenhum espaço, mínimo,
subjaz às coisas antes
de serem coisas.
É sobre um fundo de nada
que o que existe se desdobra,
pois unãom fora não tem:
só o que há, há.
Metamorfósica,
sem forma última
ou primeira,
em fluxo por um ralo
sem o outro lado,
de si para si mesma
a vida escoa
sem porquê.
(Bruno Holmes Chads)
quinta-feira, 31 de maio de 2018
Acidente na sala
Movo a perna esquerda
de mau jeito
e a cabeça do fêmur
atrita
com o osso da bacia
sofro um tranco
e me ouço
perguntar:
aconteceu comigo
ou com meu osso?
e outra pergunta:
eu sou o meu osso?
ou sou somente a mente
que a ele não se junta?
e outra:
se osso não pergunta,
quem pergunta?
alguém que não é osso,
(nem carne)
em mim habita?
alguém que nunca ouço
a não ser quando
em meu corpo
um osso com outro osso atrita?
(Ferreira Gullar)
de mau jeito
e a cabeça do fêmur
atrita
com o osso da bacia
sofro um tranco
e me ouço
perguntar:
aconteceu comigo
ou com meu osso?
e outra pergunta:
eu sou o meu osso?
ou sou somente a mente
que a ele não se junta?
e outra:
se osso não pergunta,
quem pergunta?
alguém que não é osso,
(nem carne)
em mim habita?
alguém que nunca ouço
a não ser quando
em meu corpo
um osso com outro osso atrita?
(Ferreira Gullar)
Figura-fundo
A pintura, digamos,
é mentira
é mentira
isto é:
uma pera
pintada
não cheira
uma pera
pintada
não cheira
não se dilui
em xarope,
água rala e azeda, é
pintura e por isso
dura
mais que qualquer pera verdadeira
em xarope,
água rala e azeda, é
pintura e por isso
dura
mais que qualquer pera verdadeira
e por isso também, digamos,
a pera pintada a falsa
pera
por ser mentira
(por ser
cultura e não natura)
desta sorte
nos alivia
da perda e do podre
da morte
a pera pintada a falsa
pera
por ser mentira
(por ser
cultura e não natura)
desta sorte
nos alivia
da perda e do podre
da morte
e se a mentira fosse verdadeira?
como fazê-la?
mas escute:
o que é falso
é a pera que a pintura figura
não a pintura
a cor
o traço
a pasta
a fatura
por que então
não fazer
em vez da pintura-pera
a pintura pura?
como fazê-la?
mas escute:
o que é falso
é a pera que a pintura figura
não a pintura
a cor
o traço
a pasta
a fatura
por que então
não fazer
em vez da pintura-pera
a pintura pura?
a verdade é que
a fruta pintada
não tem carnadura
não se pode comê-la
– é empaste, tintura
na tela
mas pode – e por isso –
ser bela
e, de outra maneira,
verdadeira
a fruta pintada
não tem carnadura
não se pode comê-la
– é empaste, tintura
na tela
mas pode – e por isso –
ser bela
e, de outra maneira,
verdadeira
é que a fruta-pintura
é apenas figura
sobre um fundo
de tela
(de tinta
de pasta)
mas
e se a beleza
não basta?
é apenas figura
sobre um fundo
de tela
(de tinta
de pasta)
mas
e se a beleza
não basta?
e se o pintor
quer fazê-la
nascer da pasta
do fundo
(do fundo do fundo)
como a pera real nasce do mundo?
quer fazê-la
nascer da pasta
do fundo
(do fundo do fundo)
como a pera real nasce do mundo?
(onde começa a pera?
na pereira? Onde
começa a pereira?
em que dia
em que hora
em que século
surgiu
a árvore da pera?
na pereira? Onde
começa a pereira?
em que dia
em que hora
em que século
surgiu
a árvore da pera?
a cor
da pera? o sabor
da fruta pera?)
da pera? o sabor
da fruta pera?)
E o pintor então dissolve
a figura da pera
na pasta escura do fundo
para
sem mentira
dizê-la
e nela
dizer o mundo
a figura da pera
na pasta escura do fundo
para
sem mentira
dizê-la
e nela
dizer o mundo
Pintar a partir de então
é despintar
fundir a forma
na escuridão
(na pasta, na lama)
fundir os brancos
os verdes os azuis
na suja
matéria sem luz
é despintar
fundir a forma
na escuridão
(na pasta, na lama)
fundir os brancos
os verdes os azuis
na suja
matéria sem luz
e assim
pelo avesso
o pintor
chega ao fim
isto é, ao começo:
da pasta escura
(do fundo pintado)
ressurge a figura
pelo avesso
o pintor
chega ao fim
isto é, ao começo:
da pasta escura
(do fundo pintado)
ressurge a figura
(ao contrário
de antes, quando
da figura
nascia o fundo).
de antes, quando
da figura
nascia o fundo).
(Ferreira Gullar)
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Ismália
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
(Alphonsus de Guimarães)
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